Uma das verdades mal ditas no mercado brasileiro de governança corporativa é que conselheiros são convidados, não candidatos. Executivos que abordam empresas diretamente se oferecendo para conselho costumam ser marcados como pouco elegantes e, pior, sinalizar que não entendem como o jogo funciona. A estratégia real para conseguir o primeiro assento é tornar-se o nome que aparece na shortlist quando alguém começa a procurar.
Essa estratégia não é passiva. Exige trabalho deliberado de três a cinco anos em frentes específicas, construindo reputação e rede que produzam convite espontâneo. Este ensaio descreve três caminhos reais observados em conselheiros novos de 2024 e 2025.
Caminho 1: a rota M&A
Um dos caminhos mais eficientes para primeiro conselho é estar próximo de movimentos de consolidação setorial. Quando um fundo de private equity compra uma empresa, quando duas empresas se fundem, quando uma companhia fecha capital ou prepara IPO, novos conselhos são formados ou reformulados. Executivos conhecidos dos players envolvidos ficam na posição de serem considerados.
O trabalho prévio aqui envolve construir relacionamento com sócios de fundos de PE atuantes no seu setor. Não de forma transacional ("quero um conselho"), mas através de contatos técnicos: comentar sobre movimentos de mercado, ser procurado para pareceres técnicos, participar de fóruns que esses sócios frequentam. Em dois a três anos de presença consistente, quando um deles fecha um deal e precisa montar conselho, seu nome aparece.
Executivos com experiência em setores de consolidação ativa (saúde, tecnologia, varejo, serviços financeiros) têm vantagem nesse caminho. Setores de consolidação lenta (agronegócio tradicional, indústria pesada) produzem menos oportunidades por ano, mas ainda funcionam.
Caminho 2: diversidade executiva
Desde aproximadamente 2021, empresas brasileiras, especialmente de capital aberto, enfrentam pressão regulatória, investidora e reputacional para diversificar composição de board. Isso abriu portas significativas para executivas mulheres e para pessoas de grupos sub-representados com trajetória executiva consolidada.
Nossa análise mostra que mulheres C-Level brasileiras conquistaram assentos em conselhos entre 2023 e 2025 em ritmo substancialmente maior que em anos anteriores. Executivas com trajetória sólida e presença pública estruturada encontraram, especialmente em comitês de auditoria e de pessoas, portas mais abertas que suas contrapartes masculinas com perfil comparável.
Isso não significa que basta ser mulher. Os pré-requisitos técnicos e reputacionais permanecem iguais. Significa que, entre candidatas e candidatos com qualificação equivalente, executivas têm sido priorizadas em muitas seleções — especialmente quando existem quotas formais ou informais a cumprir.
Caminho 3: rede de sócios próximos
O terceiro caminho é o mais orgânico e o que mais depende de construção de longo prazo. Conselheiros ativos, quando se desligam de algum assento ou sabem de vaga aberta em outra empresa, indicam pessoas de suas redes próximas. Essa é, na verdade, a origem mais comum de convites: indicação direta de conselheiro experiente para conselho em outra empresa.
Para entrar nessa rede, o executivo precisa cultivar relacionamento genuíno com cinco a dez conselheiros ativos do seu setor. Isso acontece através de jantares, fóruns, comentários trocados em LinkedIn, trocas de opinião sobre temas de mercado. Não é rápido, leva três a cinco anos, mas produz capital relacional que abre portas de forma contínua.
A regra tácita nesse circuito é que conselheiros só indicam pessoas com quem se sentem confortáveis em serem vistos associados. Por isso, reputação impecável é pré-requisito invisível. Um episódio público mal gerenciado, uma presença digital problemática, um histórico profissional com controvérsias — qualquer um desses fatores elimina o executivo da consideração, mesmo que ele nunca fique sabendo.
"O nome que vai no primeiro conselho é escolhido em conversas informais antes mesmo da vaga ser discutida formalmente. Estar pronto para essa conversa é trabalho de anos, não de meses."
O que fazer nos 36 meses antes do primeiro convite
Para executivos que ainda não receberam primeiro convite mas querem estar prontos em três anos, um programa de preparação pragmática tem cinco elementos.
Primeiro: certificação IBGC. O curso de Formação de Conselheiros de Administração do IBGC é praticamente selo obrigatório em empresas de capital aberto. Leva alguns meses, tem custo relativamente baixo, e sinaliza comprometimento técnico com governança.
Segundo: construção de presença editorial. Posicionar-se publicamente com produção de conteúdo no LinkedIn, artigos em publicações setoriais e, quando possível, aparições em fóruns e podcasts especializados. Horizonte de dois a três anos para construir reputação pública consistente.
Terceiro: expansão de rede em private equity. Mapear 10 a 20 sócios de fundos de PE atuantes no seu setor, encontrar formas genuínas de entrar em contato, construir conversa trimestral ao longo dos anos.
Quarto: atividade em associações setoriais de governança. IBGC, AMEC, outras associações. Participação ativa em grupos de trabalho, comissões, comitês técnicos.
Quinto: mentoria de conselheiros experientes. Identificar dois ou três conselheiros ativos dispostos a fazer mentoria informal. Essa relação, construída ao longo de anos, produz o tipo de indicação que abre o primeiro assento.
Conclusão
Conseguir o primeiro conselho sem parecer pedir é um dos balancings mais delicados da carreira executiva. Os executivos que conseguem fazem todo o trabalho invisível antes: constroem reputação, expandem rede, certificam-se tecnicamente, mantêm postura impecável em público. Quando o convite chega, parece espontâneo. Na verdade, é resultado de três a cinco anos de preparação sistemática.
Para quem quer essa trajetória, a boa notícia é que o caminho é claro. A má notícia é que ele é longo e exige paciência. A pior decisão é tentar atalhos, oferecendo-se diretamente para empresas ou pressionando conselheiros por indicação. Essa estratégia queima pontes e fecha portas que levaram anos para começar a se abrir.